O homem de preto

O primeiro contato veio com o filme Alta fidelidade. Em um determinado momento, o personagem Rob Gordon (por que não Rob Flemming?) cita seus livros prediletos, a "autobiografia de Johnny Cash, por Johnny Cash". Dali a ouvir o cantor norte-americano pela primeira vez levou seis anos, no ano que Walk the line foi lançado no Brasil. Indiretamente, claro, já que eu demorei para assistir a cinebiografia, que por aqui recebeu o nome de Johnny e June. Mas, motivado pela redescoberta do cantor, morto em 2003, fui atrás dos discos. Comprei dois da série American, o "Unchained" e o "American III - solitary man". Dias depois achei o último da carreira dele, que saiu meses após a morte de Cash: "American V - a hundred highways".
Consegui, pelo menos, completar a coleção da série American. O melhor de todos, claro, é o "American IV - the man comes around", com a magnífica versão para Hurt, do Nine Inch Nails. Em uma entrevista para a revista Rolling Stone, Trent Heznor, dono da banda, disse que a versão tinha ficado tão boa que, ao ouvir pela primeira vez, parecia que estava assistindo alguém transar com sua namorada na sua frente. O resto veio com coletâneas e downloads. Mesmo com tudo o hype em cima do filme, as gravadoras não se interessaram a lançar discos de Cash no Brasil além da coleção American. Uma pena.
Esse nariz de cera todo para dizer que, por um bom tempo, pensei em adaptar uma das músicas de Cash e fazer um conto. A escolhida era The boy named Sue. Mas, cada vez que ouvia a canção, via que seria uma tarefa complicada. As letras de Cash funcionam como pequenos contos. Elas não têm espaço para crescer. Pelo menos não na forma escrita. Podem ser transformadas em roteiros, mas não em outros textos. A poesia dele se completa e se basta na forma musicada. Assim como Bob Dylan e um punhado de caras, ele era um poeta, fazia o que muita gente não conseguia. O mais legal que de uma forma simples e pop, apesar dos arranjos country. JC definitivamente está no meu top 5. Em qualquer um que eu faça.
Escrito por Mário Coelho às 07h44
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