Mudanças
"Ch-ch-changes Just gonna have to be a different man Time may change me But I can't trace time" David Bowie - Changes
Em 5 de janeiro, completo três anos morando em Brasília. Em perspectiva, pode parecer um período curto, mas não é. Se contar ainda minha breve passagem por São Paulo, em 2004, já são mais de três anos longe de Florianópolis. Para outras pessoas, isso é um fato normal. Para mim não. É um processo difícil, até demorado de aceitação. Reluto muito a tomar decisões importantes. Mudar de emprego, de cidade, tudo. Acabo fazendo as coisas no impulso, sem pensar muito. Se eu pensar, a coluna dos contras sempre será maior e nunca farei nada. A minha saída de Santa Catarina para São Paulo foi assim; do dia para a noite decidi o que ia fazer. Eu nunca quis sair de lá. Ao ver todos os meus amigos saindo, não queria mais ficar por lá. Foi um erro fazer isso, sair de Florianópolis para fugir de uma série de problemas. Quando as coisas deram errado por lá, veio Brasília como alternativa. Cheguei a torcer que minha mãe se opusesse de uma maneira que não tivesse como me mudar para cá.
Escrevi várias vezes como não gostava daqui, como queria ir embora, arranjar qualquer emprego em qualquer lugar que não fosse na capital federal. Vim, vi e não sei se venci. Acho que as coisas estão em um bom patamar agora. Mas tudo acontecereu demoradamente, dolorosamente. Morei em uma pousada por quase dois anos. Alugar um apartamento foi um processo complicado. Sentia como se fosse assumir um compromisso com a cidade, noivar com Brasília. Quando quis, fechei o contrato rapidamente. Sair do Correio Braziliense, em novembro, foi por impulso. Passava por uma fase ruim, recebi uma boa proposta, não pensei muito e aceitei. Estou há quase um mês no novo emprego. Por enquanto, está tudo bem. Em abril, tinha recebido uma que era mais vantajosa. Pensei demais e neguei.
Sempre invejei os amigos que conseguiam ser desprendidos com tudo. Largar temporariamente a faculdade, assinar um contrato de trabalho e ir para o exterior fritar hamburguer. Sair do trabalho e se dedicar aos estudos. Queria muito fazer essas coisas, mas eu preciso de um chão, de uma rotina, de um emprego, do contra-cheque no fim do mês. Até mesmo viajar nas férias ou nos feriados, fazer outra coisa que não seja passar por São Paulo e ficar o resto do tempo na casa da minha mãe em Florianópolis. Pelo menos duas vezes por ano estou lá. Como as passagens são caras, fico boa parte do ano pagando as prestações. Aí nem dá para fazer outra coisa. Poderia ir para outro lugar, mas decidir seria bem complicado. Não conseguiria ir sozinho, por exemplo. Teria que ter alguém me puxando junto. E eu nunca tive alguém assim.
Agora, é engraçado ver que uma decisão errada pode levar a uma correta. Trocar Florianópolis por São Paulo me trouxe a Brasília. Na primeira vez, foi impulso. Na segunda, muitas horas perdidas pensando nisso. E não queria vir. Hoje não penso em sair.
Escrito por Mário Coelho às 03h17
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