Círculo vicioso
Uma vez escrevi nesse espaço que um disco um livro ou um filme - enfim, qualquer tipo de arte - tem seu tempo para digerir. Referia-me ao 4, último disco do Los Hermanos. Comprei e, por muito tempo, não conseguia ouvir uma vez inteira sequer. Passou um tempo, vi um show da banda em Florianópolis e mudei a minha idéia. Outras vezes, não tiramos um CD do aparelho de som. Depois, por nada, ele volta para a estante e começa a ganhar poeira. Até ele ser descoberto novamente. Comigo aconteceu recentemente com Let it bleed, meu álbum favorito do Rolling Stones. Tempos atrás eu fiz um post sobre ele:
"Em Let it bleed você pode encontrar todos os papéis que os Rolling Stones já encarnaram - garanhões fanfarrões, criminosos rebeldes, donos de harém, cavaleiros da vida acelerada -, uma década de poses. Mas no começo e no fim existe uma abertura para os anos 70 - mais difícil de engolir, um vinho bem mais forte. You can't always get what you want ecoa em Gimme shelter; essas canções não pretendem mais dominar as pessoas, mas buscam um domínio incerto sobre as situações bem mais desesperadas que os anos por vir estão prestes a impor."
Não fui eu quem escreveu esse trecho aí de cima. Eu tirei de um livro do Greil Marcus, um dos grandes críticos musicais de toda a história. Quando ligo o aparelho de som, eu faço o seguinte: coloco na última faixa - You can't always get what you want -, aciono o repeat e deixo o disco voltar para Gimme shelter. Acontece justamente o que Marcus escreveu. As músicas ecoam, e te dominam de uma maneira completamente sutil. O coro de You can't..., o solo de guitarra na introdução de Gimme shelter. No meio, a obra prima, que nomeia o álbum. Se fosse para resumir Let it bleed por suas músicas, eu diria que a mensagem de Jagger, Richards e companhia era de que precisamos de alguém para nos apoiarmos, mas nem sempre conseguimos o que queremos.
Escrito por Mário Coelho às 00h26
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