Canção de poda
"Eles só fazem uma pergunta a você. Pouco antes da sua formatura na faculdade de jornalismo, eles mandam você imaginar que é um repórter.
Imagine que você trabalha num jornal diário de uma cidade grande e que, em certa véspera de Natal, o editor manda você investigar uma morte. Os policiais e enfermeiros estão lá. Os vizinhos, de robe e chinelos, entopem o corredor do prédio vagabundo. Dentro do apartamento, um jovem casal soluça ao lado da árvore de Natal. O bebê deles morreu sufocado por um enfeite. Você pega o que precisa: o nome do bebê, a idade e o resto todo. Volta para o jornal por volta da meia-noite e escreve a matéria a tempo de cumprir o prazo final. Mostra a reportagem ao editor e ele a rejeita porque você não disse qual era a cor do enfeite. Era vermelho ou verde? Você não viu e não pensou em perguntar.
Com a gráfica urrando pela primeira página, as suas opções são:
( ) Ligar para os pais do bebê e perguntar qual era a cor do enfeite.
( ) Recursar-se a ligar e perder o emprego.
Isso era o Quarto Poder. Jornalismo. E na minha faculdade, essa era a única pergunta da prova final do curso de Ética. Só havia essas duas opções. Minha resposta foi ligar para os enfermeiros. Itens como esse sempre são catalogados. Provavelmente o enfeite fora guardado, fotografado e arquivado como evidência. De jeito algum eu iria ligar para os pais depois de meia-noite na véspera de Natal.
A faculdade deu conceito D para minha ética. Em vez de ética, aprendi a só dizer às pessoas o que elas querem ouvir. Aprendi a anotar tudo. E aprendi que os editores podem ser uns babacas totais. (...) Desde então, continuo me perguntando qual era o objetivo daquela prova. Hoje sou repórter de um jornal diário numa cidade grande e não preciso imaginar coisa alguma."
Trecho de