O cheiro adolescente
"With the light out it's less dangerous here we are now, entertain us I feel stupid and contagious here we are now, entertain us" Nirvana - Smells like teen spirit
Na saída de uma balada rock'n'roll em Florianópolis, há quase três semanas, duas meninas - uma de 24 e outra de 18 - dizem que Nirvana é uma porcaria, que Kurt Cobain era um chato e que a banda muito bem poderia não ter existido. Eu, sob efeito de algumas cervejas tomadas durante a noite, começo a gritar "hereges, hereges, queimem nas fogueiras da inquisição". Corta para Brasília, no último sábado. Festa em homenagem a Jungle Brothers, antiga boate rock daqui. Depois de muitos anos 80 - de New Order a Sisters of Mercy - e as novidades indies que pululam por aí, foi o momento de reviver a década que, se não fosse pela banda de Seattle, fatalmente estaria perdida.
Weezer, Pearl Jam, Alice in Chains. Uma a uma as músicas dos grupos alternativos da época foram aparecendo, e o povo presente na festa foi respondendo muito bem. Mas o ápice ainda estaria por vir. No momento em que os primeiros acordes de Smells like teen spirit saíram das caixas de som, uma catarse coletiva foi criada. E não eram apenas os mais velhos, aqueles que presenciaram a explosão do Nirvana no fim de 1991 e a quebra da ordem vigente musical da época.
Goste ou não, é preciso reconhecer que a banda conseguiu quebrar com o marasmo da época. Guns'n'Roses, Michael Jackson e Madonna, todos em fases decadentes, ocupavam os postos mais altos nas paradas de discos. O Nirvana serviu para colocar toda uma geração de grupos em voga. Antes, o Alice in Chains já tinha lançado seu primeiro disco, Facelift, que obteve bons números. Soundgarden a mesma coisa. Mudhoney se destacava no circuito universitário, mas ainda faltava aquele pontapé para escancarar a porta. E ele veio com Nevermind.
Se hoje podemos ouvir de Artic Monkeys a Interpol, passando por She Wants Revenge, Strokes e Franz Ferdinand, muito se deve ao Nirvana. Num exercício de imaginação, o que poderia ter acontecido se Smells like teen spirit não tivesse entrado em Nevermind, como era planejado? A resposta, para mim, parece simples. Não teríamos metade do que está rolando mundo afora. O trio de Seattle recuperou o orgulho do rock, mesmo que não tivesse essa intenção. Ok, são grupos com influências das mais variadas, mas dificilmente teriam espaço se alguém, há 15 anos, não tivesse assombrado o mundo com uma simples música que pretendia soar como Pixies.
Escrito por Mário Coelho às 11h11
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