Desabafos regados a Malboro e Coca-Cola


Cinema, aspirinas e histórias em quadrinhos

"We can be heroes
just for one day
We can beat them
just for one day
"
David Bowie - Heroes

Na cena inicial de Batman, dirigido por Tim Burton em 1989, Jack Napier assalta uma família na saída de uma ópera no teatro municipal de Gotham City. O pai reluta, tenta reagir; por conta disso, ele e a mulher acabam mortos pelo bandido. O pequeno Bruce Wayne, com oito anos, fica traumatizado. Muitos anos depois, Napier e o menino se encontram. O primeiro como Coringa, e o segundo como Batman. No fim, o homem-morcego prevalece. Coringa despenca do topo de um prédio e morre. O filme fez sucesso comercial - eu mesmo lembro de ter enfrentado uma fila enorme no falecido Cine Carlitos para assistir - e gerou três continuações. Mas por conta dessas "licenças poéticas" de Burton, e depois de Joel Schumacher, os fãs de histórias em quadrinhos começaram a chiar, e a Warner colocou na gaveta todos os projetos para adaptações da DC Comics.

Por muitos anos, Superman, o retorno, ficou no limbo da produtora norte-americana. Vários atores foram cogitados para o papel do homem de aço. Até o quase careca Nicholas Cage chegou a ser confirmado para estrelar o filme. A dança aconteceu também em quem ficaria responsável pelo roteiro e pela direção. Até que o filme chegou às mãos de Bryan Singer, um dos responsáveis pela nova onda de adaptações com os bem-sucedidos X-men e X-men 2. Junto com Avi Arad, chefão da Marvel, eles perceberam que não dava para produzir os filmes sem respeitar os fãs de quadrinhos. Afinal, foram eles que criaram essas empresas. E também não poderiam desprezar os não iniciados.

A idéia é simples: primeiro introduzir os personagens, contar a história de cada um, suas motivações. Depois, partir para a ação. No caso de X-men, um caso complicado pelo grande número de histórias. Singer conseguiu fazer um filme que tanto os maníacos por quadrinhos aprovaram quanto os que nunca tinham ouvido falar nos mutantes antes. Com o sucesso nas bilheterias, Arad partiu então para um ambicioso projeto. Levar para as telas de cinema todos os personagens da editora. Todos eles tinham a mesma fórmula. Homem-aranha, com Sam "Evil dead" Raimi na direção, conseguiu respeito e atingiu marcas incríveis de arrecadação.

Se a Marvel acertou com X-men e Homem-aranha, errou com Hulk e O justiceiro, por exemplo. A fórmula não previa as já citadas licenças poéticas de diretores e roteiristas. Isso acabou acontecendo com X-men 3. A direção da última parte da trilogia ficou nas mãos de Brett Rattner, que ganhou dinheiro nos três filmes A hora do rush, com Jackie Chan e Chris Tucker. Apesar dos efeitos especiais, da fantástica cena do Homem de Aço lançando Wolverine, falta história, conteúdo. O resultado chega a ser decepcionante; a saga da Fênix, uma das melhores fases das HQs dos mutantes, ficou deslocada, sem sentido. X-men 3 teve bom resultado financeiro, mas não empolgou. O contrário das duas primeiras partes.

Mesmo com o sucesso da associação Fox-Marvel, a Warner e a DC não conseguiram tirar da gaveta o tão esperado projeto de Batman begins. A idéia era esquecer que outros quatro filmes do herói de Gotham haviam sido produzidos, tendo como base a graphic novel Batman ano um, de Frank Miller. Novamente um número incontável de atores e diretores passaram pela adaptação. Até que Christopher Nolan, de Amnésia e Insônia, foi escalado. Após vários testes, escolheu Christian Bale para interpretar Batman. Mesmo na empresa rival, usou como modelo o padrão Marvel de adaptação. E deu certo. Mas, para consolidar o projeto, faltava ainda o expoente maior da DC: Superman.

Quem cuidou do projeto primeiro foi Rattner; Warner e DC não gostaram do que ele tinha apresentado e acabaram dispensando o diretor. Foram atrás de Singer, que já cuidava do roteiro de X-men 3. Ele topou, e abandonou a franquia que o projetou. Assim como Batman, o homem de aço já tinha sido adaptado para o cinema, em quatro filmes feitos entre 1978 e 1987. Mas a diferença é que os dois primeiros não fizeram feio à imagem do herói. Especialmente o primeiro, dirigido por Richard Donner. Cercado de cuidados, Singer decidiu fazer o argumento do filme como se fosse uma continuação da primeira obra, de 1978.

Após alguns anos de um misterioso desaparecimento, Superman retorna ao planeta Terra. Porém a situação em Metrópolis está bastante mudada desde que o homem de aço deixou o planeta, pois a cidade se acostumou a viver sem ele. Além disto, Lois Lane, sua grande paixão, seguiu sua vida após o sumiço do herói. Ao mesmo tempo em que precisa se adaptar à nova realidade, Superman precisa enfrentar um antigo inimigo, Lex Luthor, que planeja um meio de acabar com ele de uma vez por todas. Singer chegou a usar inclusive cenas de Marlon Brando não utilizadas na primeira versão, o que deu mostrou respeito ao precursor da série, além de uma perspectiva interessante ao roteiro.

O que fica claro é que, apesar da fórmula criada por Arad, o sucesso da adaptação fica nas mãos dos diretores e roteiristas, na concepção do argumento e na escolha dos atores. Sem isso, não adianta Ang Lee caprichar nos efeitos especiais de Hulk, se toma a liberdade de fazer o homem verde, após a transformação, continuar crescendo de tamanho toda vez que é atacado. Sin city é o exemplo para contrapor. A transposição literal do universo de Basin City criado por Frank Miller, como exercício de técnica cinematográfica, é incrível. Tanto que os übber nerds de HQs apontam como a melhor adaptação de quadrinhos já feita. Para mim, está longe disso. Falta interpretação, falta a mentalidade de que você tem a liberdade de trabalhar em três dimensões o que foi feito em duas. E isso pode muito bem, como provaram Singer e Raimi, ser feito sem desagradar fãs e deixar quem não conhece chupando o dedo.



Escrito por Mário Coelho às 03h47
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