Azarar na W3
"Eu admiro as mulheres que usam seus homens fazem de tudo o que querem por dinheiro ou prazer São maquinas de sexo e de prazer é tudo tão fácil pra você gozar" Wander Wildner - Damas da noite
O underground, o submundo, seja lá qual nome você prefira dar, sempre me atraiu. Não para ser participante, e sim como observador. Mesmo sem saber, era a veia jornalística falando. (Ok, eu admito. Muitos não vão concordar e vão dizer que é safadeza mesmo.) Gosto de ver coisas diferentes, pessoas diferentes, mundos diferentes. Nem que seja de longe, estritamente como um observador. Na verdade, é assim que eu prefiro. Morando sozinho, sem ter que dar satisfação da hora que sai e chega, é bem mais fácil, convenhamos.
A noite de Brasília muitas vezes é similar à beira de qualquer rodovia federal que tenha trânsito imenso de caminhões. Na avenida W3, uma das principais e mais movimentadas da capital do Brasil, é só chegar as 22h para estudantes serem confundidas com prostitutas. Os pontos de ônibus são os locais onde qualquer um pode fechar um programa. "É R$ 60 no meu ambiente, gato", diz a garota de 19 anos, que durante o dia freqüenta o curso de técnica em Enfermagem e mora em Taguatinga.
O projeto de Lúcio Costa dividiu a cidade em setores, para facilitar a procura por produtos. No caso, fora do Plano Piloto, mas ainda em Brasília, existe o Setor de Postos e Motéis. Troque o óleo, encha o tanque e escolha o melhor preço para se divertir, sem cobranças emocionais. Caso o cliente queira ir para um motel, é mais caro. Normalmente, o valor dobra. "É porque no motel o tempo é maior", justifica a mulher de 32 anos, que sai todo dia de Brazlândia para esperar clientes embaixo de um dos viadutos do Setor Comercial Sul.
A W3 Norte, os setores Comercial e Hoteleiro Sul são os locais preferidos pelas garotas de programa. A prostituição nas ruas de Brasília é favorecida pelo fato de que na cidade não existem puteiros, apenas boates onde pode-se combinar o programa. E isso vale para todos os tipos de bolsos. Desde aquelas preferidas por políticos e empresários, como a Gol e o Star Night, como as mais modestas, em especial as do Conic.
Ao conversar com as meninas, você nota duas coisas. A primeira é que a grande maioria não usa palavras como garota de programa e prostituta. Puta, nem pensar. Das que eu conversei, somente uma se denominou como puta. E a menina, que diz ter 19 anos, tem uma história engraçada: ela é fanática pelo senador baiano Antônio Carlos Magalhães (PFL). Chega a andar com duas fotos dele na bolsa. Elas usam normalmente o termo "trabalhar na noite". É uma forma de diminuir a pressão que é viver trocando sexo por dinheiro. Pode ser um dinheiro rápido, mas nunca é fácil.
A segunda constatação é que a origem delas, o que as levou a serem protistutas, é basicamente o mesmo. É quase como completar as lacunas de um exercício de livros didáticos de inglês. Casaram cedo, tiveram filhos e separaram. Aqui você pode colocar que vinham de uma família desfuncional, brigaram com os pais e saíram de casa. Não tinham qualificação ou não conseguiram encontrar emprego. Uma amiga falou que o dinheiro poderia vir fácil se começassem a se prostituir. Quase todas esperam não ficar muito tempo na rua. Só que apenas uma das que conversei tenta mudar o próprio destino. A moça que estuda técnica em Enfermagem.
Uma delas tentou sair da prostituição. Bonita e inteligente, conseguiu um emprego numa loja de móveis. Ganhava em um mês - com atraso, diga-se - o que em muitas vezes tirou numa só noite. Começou como stripper. Uma colega tentava conseguir um programa que lhe salvaria o mês. A condição do cliente era que ela conseguisse que a stripper participasse. Ofereceram R$ 800. Ela topou. A partir daí, passou seis meses fazendo strip-tease e programas. Para agüentar, fumava muitos baseados e várias doses de uísque. Ao abandonar a boate, as antigas colegas começaram a pressioná-la. Toda vez que ela reclamava da situação, que não tinha dinheiro para comer, que estava difícil de pagar o aluguel, elas diziam: "Amiga, só um programa resolve a tua vida". Ela agüentou por dois meses. Arrumou as malas e foi tentar a vida como prostituta em São Paulo. "Já fui lá, tem muita menina bonita, a concorrência é grande. Mas eu sei que sou bonita e posso ganhar muito dinheiro."
Escrito por Mário Coelho às 16h55
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