Uma voz sensata
Dennis Lehane tem razão. Em Apelo às trevas, segundo livro da dupla de detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro, um diálogo - na verdade mais um monólogo -, me fez vibrar. Tá lá, na página 174. É Patrick falando para Kevin Hurlily, um "soldado" da máfia irlandesa. A melhor parte está em negrito.
"'Bom, Kevin, não sei se estou tirando conclusões apressadas, mas me parecer que você não é muito fã de música alternativa.' Kevin acendeu um cigarro. "'Sabe', continuei, ' eu também não era, mas minha sócia acabou por me convencer que existe muita coisa boa por aí, além dos Stones e do Springsteen. Não me entenda mal; tem muita porcaria, muita coisa a que se dá valor, mas que não está com nada. Vá explicar o sucesso do Morrisey, por exemplo. Mas aí você topa com um Kurt Cobain ou um Trent Reznor e diz: 'Esses caras são o máximo', e isso já basta para lhe dar esperança. Mas talvez eu esteja errado. A propósito Kevin, como você se sentiu quando Cobain morreu? Você acha que perdemos a voz da nossa geração, ou isso aconteceu quando o pessoal da banda Frankie Goes to Hollywood se separou?"
É por isso que o cara é um dos meus escritores prediletos.
Obs.: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios entra fácil entre os cinco melhores livros de 2005. Além do melhor título de livro ever, a maneira que Marçal Aquino brinca com o texto é incrível. A narrativa, não-linear, é rica em detalhes e descrições. Aquino sabe que escrever é a arte de cortar palavras (já dizia o poeta que virou chavão), então não se gasta cinco páginas descrevendo o cabelo da personagem Lavínia, ou como o fotógrafo Cauby é um loser. No final, ao passar pela última página, fica-se com uma sensação estranha. O livro te faz pensar, apesar de ser um romance sem maiores pretensões. Será que estamos quase todos condenados a amores deste tipo, neuróticos, corroídos, dementes?
Escrito por Mário Coelho às 09h54
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|