De volta ao colégio
"I'm sittin' in a bar tippling a jar in Jackson
And on the street the summer sun it shines
There's many a bar-room queen
I've had in Jackson
But I just can't seem to drink you off my mind"
Rolling Stones - Country Honk
Na manhã do dia oito de agosto, acordei com o mesmo frio na barriga que tinha quando ia ao primeiro dia de aulas no colégio. O fim de semana anterior foi ótimo. Três dias em São Paulo visitando os amigos que não via desde que vim para Brasília. Show fantástico do Cake na sexta-feira, Matrix no sábado. Conversas regadas a cerveja, Coca-Cola e vários, vários Malboro. Almoço no Jack’s, meu food joint predileto. Passeio na Galeria do Rock, o disco do Laranja Freak acrescentado à coleção e o vinil do Mutantes e seus cometas no país dos Baurets comprado para um amigo. Cavucando coisas baratas na FNAC, como o Samba Ben Bom, do Jorge Ben, e o primeiro do Stephen Malkmus. Boas lembranças.
Ao chegar no aeroporto, ligo para uma amiga. Quero saber se ele pode me buscar. Gastar uma grana de táxi estava fora de cogitação. Ônibus, no domingo e no horário que cheguei, era inviável. Ela topou, beleza. Mas impôs uma condição: "Vamos tomar uma cerveja antes de te deixar em casa". Ah se todas as condições fossem assim. Paramos no Beirute, um bar, digamos, bastante democrático aqui de Brasília. Lá tem um bom sanduíche, grande, com filé, salada e ovo frito. (Se não fosse o pão com ovo, acho que eu morreria.) A cerveja é gelada, assim como o atendimento. Conversa sobre política, discute-se sobre política e vamos embora. Ajudou a baixar um pouco a pressão.
Mesmo assim acordei com aquele frio na barriga. "Como vão me recepcionar lá?" "Qual será a minha primeira pauta?" "Será que eu vou demorar a recuperar o ritmo de jornal diário" A primeira semana passou, sem grandes sobressaltos. Na verdade, a primeira semana durou exatos 12 dias. Fui da segunda-feira, dia oito, até a sexta-feira 19 direto. Já me colocaram no plantão. Fiz boas matérias, que renderam chamadas na capa e foto. Fiz uma matéria ruim, que também rendeu foto e chamada na capa. Fiz plantão noturno. Ainda não fiz a ronda matinal (segunda e terça que vem, non stop).
Não consigo ainda parar de me impressionar com a estrutura da empresa. Uma redação enorme, com lindos computadores HPCompaq pretos com cinza. Uma barulheira que muitas vezes busco refúgio no CD player. Agora por exemplo está rolando o álbum Let it bleed, dos Stones. Clássico. Vários fotógrafos. Carros sempre à disposição para fazer as pautas. Pessoas muito competentes. Pessoas burras, como em todo lugar. A empresa, que faz parte de um conglomerado que só no Distrito Federal tem mais duas rádios e um site de notícias em tempo real, chegou até a enviar uma carta para minha casa "agradecendo a minha entrada", tendo certeza de que farei um bom trabalho. Claro, é padrão para todo funcionário que é contratado, mas não deixa de ser uma motivação a mais.
Estou no meu 16º dia do primeiro período de experiência. Caso a editora ache conveniente, esse período é renovado por mais 45 dias. Espero, e trabalho, para que isso aconteça. Esse é o meu quarto trabalho. Nunca vi coisa parecida. Pela primeira vez, sinto que faço parte de uma grande empresa, onde realmente serei testado. Um desafio maior, como disse um ex-professor e amigo. É contar os dias e fazer o melhor que sou capaz, só para viver em paz.