Desabafos regados a Malboro e Coca-Cola


Interrompendo a programação normal

Matéria publicada na edição 421 do Caderno Brasília. Acho que ficou legalzinha.

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SELO SENHOR F UNE DOIS ÍCONES DA CENA MUSICAL

MÁRIO COELHO
REPÓRTER

Nos idos de 1985, uma canção dizia que "façam a revolução, que está no ar, nas ondas do rádio". A composição, de Paulo Ricardo e Luiz Schiavon, funcionava como uma espécie de protesto às dificuldades que as bandas do rock brasileiro dos anos 1980 tinham para ver suas músicas tocando nas emissoras de rádio. É claro que, depois de mais de dois milhões de discos vendidos, o RPM não tinha mais esse problema. Hoje, outra revolução caminha a passos largos, bem distante das rádios que funcionam na base do jabá e dos tentáculos das grandes gravadoras.

Meio de comunicação mais próximo do democrático que pode existir, a internet hoje serve de auxílio para a disseminação de novas bandas que pululam em vários estados brasileiros. A troca de mp3, arquivos de música em formato compactado com pequena perda de qualidade, é o combustível que alimenta a cena independente do país. No início, eram preferidos sites como o MP3.Com, antes gratuito, agora pago e fechado para assinantes. O queridinho do momento é o TramaVirtual, braço na internet da gravadora Trama, dirigida por João Marcelo Bôscoli. Por sinal, o site, criado em maio de 2004, acaba de virar um selo.

Brasília, com uma cena variada, que vai da MPB ao rock indie, passando por ritmos com influências nordestinas, não poderia ficar de fora. Se o Rio de Janeiro tem a sua Midsummer Records, Goiânia (que alguns chamam de Goiânia Rock City) tem a Monstro e São Paulo tem a Baratos Afins, a capital federal caminha para ter um selo que consiga escoar a produção da música independente: a Senhor F Discos.

Nascida no fim de 2003 após uma parceira entre Fernando Rosa, o editor da revista virtual Senhor F, o Phillippe Seabra, líder da Plebe Rude e dono do estúdio Daybreak, o selo tem por objetivo editorial lançar grupos e intérpretes da cena alternativa atual, além de resgatar raridades do rock nacional de todos os tempos. Até agora, foram lançados dois discos: a coletânea Noites Senhor F e Canções perdidas num canto qualquer, da banda pernambucana Volver. No forno, o álbum de Beto Só, que deve sair em junho. "Foi pilha do Phillippe", diz Fernando Rosa, referindo-se sobre o surgimento da gravadora. "Eu achava complicado. Já era difícil tocar a revista, imagine um selo", completa.

Há dois anos, quando voltou a morar em Brasília, Seabra encontrou dificuldades na cena independente. Não havia opções de locais para tocar, e as bandas reclamavam que faltavam mais estúdios de gravação. Por isso montou o Daybreak, e ainda não sossegou enquanto Fernando Rosa não anunciou a criação do selo. "Há 20 anos atrás, quando a Plebe surgiu, nós tínhamos uma urgência de fazer as coisas. Hoje, eu sinto as bandas um tanto acomodadas. Nós queremos dar espaço para os grupos que tiverem qualidade e esse urgência de fazer as coisas", diz.

Da Senhor F Discos, mais tarde nasceu um braço, digamos assim: a Senhor F Virtual, que disponibiliza quinzenalmente singles de artistas que não necessariamente gravarão mais tarde pelo selo. "Tem muita banda boa por aí. A internet ajuda muito na divulgação, e a escolha é alinhada com a linha editorial da revista", afirma Rosa. O último lançamento foi da banda catarinense Repolho. Antes foram disponibilizados, com direito a capinha do CD para baixar e imprimir, os singles de Beto Só, dos pernambucanos da Volver, dos curitibanos da Mordida e os catarinenses da Pipodélica.



Escrito por Mário Coelho às 16h50
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Diário de viagem
parte 1: o casal do aeroporto

"Take me away, see I've got to explain
Things they are changing such a permanent way
Life seems unreal, can we go back to your place
Ah you drink too much, makes me drink just the same
"
The Strokes - Alone together

(início do nariz de cera)
O vôo estava marcado para as 15h15. Adoro horários de aeroporto. Sempre com aquelas horas quebradas, tentando mostrar uma pontualidade britânica que na maioria dos casos não existe. "Chegada prevista para as 23h51." Isso é fantástico. Ao mesmo tempo, tenho um medo danado de perder o avião, de chegar atrasado e ter que comprar uma outra passagem. Como dizem que o seguro morreu de velho, procuro estar no aeroporto sempre mais cedo.

A viagem estava marcada para começar as 15h15. Chegaria ao Rio de Janeiro próximo das 17 horas e só pegaria o avião que me deixaria em Florianópolis às 20h15. Três horas para matar na capital fluminense. Depois de uma escala em São Paulo, finalmente chegaria em casa. Mas antes, tinha que dar um jeito de ir para o aeroporto. Pedi carona para várias pessoas. Ninguém podia ou não tinha condições de sair de casa num dia de feriado. A solução foi pegar um táxi.

Vinte e cinco reais mais pobre, chego ao aeroporto. Balcão da Gol vazio. Fumo um, dois cigarros. Quando lembro que a empresa só serve uma barra de cereais no serviço de bordo, meu estômago começa a roncar. Vou até a praça de alimentação, ainda bem que tem um Giraffas. Eu não tinha almoçado, peço um bife com arroz, feijão e batatas fritas. Achar um lugar é a tarefa mais fácil do dia.
(final do nariz de cera)

A mesa escolhida tem ao lado um casal. Não dá para dizer se era um casal de amigos, se eram irmãos ou namorados. O que ficava latente era que o clima entre os dois era ruim. Não trocavam uma palavra. Apenas olhavam um para o outro. Ele mais do que ela. A mesa estava vazia. Esperavam o lanche ficar pronto. Quando a senha deles foi chamada, ele se levantou e foi buscar, voltando com uma bandeja com um refrigerante, um suco e um prato parecido com o que eu pedi.

Ela come. Ele bebe o suco. Não trocam uma palavra. Ele não tira os olhos dela. Ela come bem devagar. Parece que quer retardar um confronto iminente. Meu almoço fica pronto. Ao passar pelo lado deles, percebo na expressão triste da garota. Alguma coisa muito ruim havia acontecido entre os dois. Volto com minha bandeja, e entre uma garfada e outra, dou uma espiada nesse casal. A cada olhada, minha curiosidade aumenta.

A vontade de sentar junto aos dois é grande. Claro que eu não faço isso. Vem a minha cabeça os melhores textos do Vitor de Brites, que como ninguém conseguia explicitar que todas as pessoas são cretinas, não importando quão legais elas sejam. Isso faz o tempo passar, e acabo voltando à realidade quando ela termina a refeição e os dois se levantam. Sigo com os olhos até os dois saírem da praça de alimentação. Não andam de mãos dadas. Ela fica um pouco à frente, caminhando em passadas mais rápidas. Ele tenta acompanhar.

O que será que resultou naquela dramaticidade toda? Não trocaram palavras. Era simplesmente um clima. Um clima ruim que os impedia de tocar no assunto. Um clima que aparecia facilmente para os mais atentos. Havia uma tristeza na garota que me intrigava. e uma raiva contida nele que me espantava. E apesar de toda a minha curiosidade e espanto, eu fiquei olhando, nada falei. A verdade poderia ser desapontadora.



Escrito por Mário Coelho às 15h42
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Projeto

Durante a semana, um projeto de projeto: aos poucos, vou contando o que aconteceu em Florianópolis durante o feriado. Claro que nem tudo será contado. É uma espécie de olhar diferenciado após passar cinco meses fora de casa. Coisas estranhas, curiosas. Uma espécie de diário, onde apenas a emoção conta. Vai ter casal, vai ter cinema, vai ter bebida. De tudo um pouco.



Escrito por Mário Coelho às 18h22
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