Digressões
She said, "My breasts, they will always be open
Baby, you can rest your weary head right on me
And there will always be a space in my parking lot
When you need a little coke and sympathy"
Rolling Stones - Let it bleed
Mário é um garoto que se considera moderninho, gosta de ouvir e procurar por bandas novas de rock'n'roll, usar tênis da Adidas, cintos de tachinhas e eventulamente até pintas as unhas de preto. Mas no fundo, ele sabe que suas reações muitas vezes são de uma pessoa que nasceu e se criou numa cidade pequena, onde poucas coisas acontecem. Seus amigos sempre disseram: "É, da nossa turma você é o mais moderninho". E isso o enchia de orgulho. Era fácil discorrer sobre bandas que a maioria daquelas pessoas nunca tinha ouvido na vida, ter atitudes que eles mesmos nunca teriam. Assim, poderia muito bem se considerar o moderninho da turma.
Só que isso é apenas uma parte da verdade. Mário, talvez por causa da criação católica que teve - inclusive já pensou em ser padre! - tem seu lado conservador. Um lado que sempre se assusta quando vê coisas as quais não está acostumado. O primeiro choque foi quando visitou São Paulo pela primeira vez. Colocou seu casaco Adidas, sua camiseta do Weezer e, junto com um amigo, rumou para uma das casas moderninhas da cidade grande. Lá viu coisas que só tinha ouvido falar, que nunca imaginou que pudessem acontecer na sua cidade natal. Coisas que para ele estavam restritas a filmes. E, obviamente, ficou chocado e fascinado ao mesmo tempo.
Aquela era a cidade que ele queria morar. As pessoas conheciam e gostavam das mesmas bandas que ele, muitas vezes mais. Conseguiu se enturmar, começou a trocar experiências. Por um tempo ficou deslumbrado, e por causa disso acabou perdendo o emprego. Emprego esse que não era lá essas coisas, mas pelo serviria para pagar suas contas e garantir sua estada lá por um tempo. Foi justamente por causa desse deslumbramento que teve que sair de lá, procurar um novo lugar para trabalhar. O rumo foi a capital federal. Não por vontade própria, mas por força do destino. Resignou-se e foi.
Sentiu a cidade hostil no começo. Pra falar a verdade, sente isso até agora. Só que isso acabou reforçando um vínculo que ele achava que não tinha: sua família. Considerava-se desprendido de todo e qualquer sentimento familiar. Estava errado. Uma coisa boa que a capital lhe deu foi justamente a descoberta dos laços familiares. Sua mãe e sua irmã são o que ele tem de mais precioso. Os amigos que ficaram na sua cidade natal também. Alguns ele nem era tão amigo, mas com as facilidades da internet amizades foram crescendo com mais força.
Agora, depois de cinco meses, ele vai visitar a família e os amigos. Está contando as horas para chegar no aeroporto e pegar o vôo que vai levá-lo para casa. Quer aproveitar ao máximo os três dias que vai passar na companhia daqueles que ele mais sente saudades. Vai faltar tempo, ele sabe. Já tem até a música ideal pra cantar quando chegar no aeroporto. Mas antes, um choque de realidade: tem que terminar as páginas que seu chefe o mandou fazer.