Quatro meses e contando (quase mais do mesmo)

"So we think that we're important
And we think that we make sense
And we think there's something better
on the other side of this fence"
Cake - Waiting
Depois de trinta horas dentro de um ônibus da Itapemirim, cheguei a Brasília no dia cinco de janeiro. Com mais receios do que esperança, diga-se de passagem. Foi difícil sair de São Paulo. Apesar de estar desempregado e sem alguma perspectiva, os amigos lá estavam, tinha as baladinhas indie com meninas japonesas de franjinha e tatuagens nos ombros. Tinha os amigos que conheci lá. Algumas se tornaram muito especiais. Ela, ela, ela e ela sabem quem são. Ou pelo menos deveriam saber. Cada uma a seu modo.
Já moro há mais tempo em Brasília do que em São Paulo. Conheci poucas pessoas, fiz pouquíssimas amizades. Muito por preferir ficar no meu quarto ouvindo a coleção do Rei ou então o novo do Cake e do Kings of Leon. E lendo. Meu índice de leitura aqui está num nível que nunca esteve antes. Reflexo claro do meu isolamento. O último foi Trainspotting, do Irvine Welsh. Agora estou lendo o Almanaque anos 80, um inútil divertimento. Tem de tudo, de literatura policial a livros de reportagem, passando por coleções de crônicas e romances.
As opções de baladas eventualmente vão aparecendo. Uma aqui e outra ali. Coisinhas legais, com pessoas legais e músicas legais. Mas ainda é muito pouco. Dizem que Brasília é uma cidade para amar ou odiar. Eu me encaixo na segunda opção. Talvez eu ainda chegue a um estado de indiferença, mas não sei se isso vai acontecer. Não quero ficar aqui definitivamente. A saudade de todos - da família, dos amigos - está cada vez maior. E isso tem afetado diretamente o meu desempenho no trabalho. Os chefes já me chamaram para uma conversa, e pediram para eu me apresentar mais, coloquemos assim.
Fizeram questão de enaltecer minhas qualidades e meu potencial - cheguei a ouvir que tenho o perfil para trabalhar n'O Globo e na Folha. Não sei se é isso que eu quero. Mesmo já tendo quase quatro anos de experiência profissional, ainda me sinto como um foca. Pela primeira vez trabalho numa empresa jornalística decente, que tem um nível alto de cobrança e dá condições de trabalho aos funcionários. Enquanto estava em São Paulo, nunca pensei em voltar para Florianópolis. Aqui em Brasília este sentimento é recorrente. Apesar de ter uma relação de amor e ódio com quase tudo aqui, tenho certeza de que a experiência será positiva pra mim. Só não sei quanto tempo ela vai durar.