O auditor, o Placebo e o sonho realizado
C'est le malaise du moment L'épidémie qui s'étend La fête est finie on descend Les pensées qui glaces la raison Placebo - Protège moi
Antônio Carlos é o que se pode chamar de fã. Há dois anos deixou Brasília após ser aprovado num concurso para auditor da Receita Federal em Palmas (TO). Formado em Odontologia pela UnB, sempre se imaginou examinando bocas e arcadas dentárias, nunca declarações de impostos. Casado, teve que procurar o que era melhor para sua família. Mas nunca deixou de visitar sua terra natal, Brasília. "Imagina uma cidade que não tem nada, absolutamente nada pra fazer; essa é Palmas", disse, um tanto resignado.
Antônio Carlos é fã. E é por isso que ele viajou 973 quilômetros - de avião, claro - para assistir o show do Placebo na sua terra natal. Antônio Carlos, por ser fã, estava eufórico. Tem todos os discos, sabe todas as músicas de cor. Todas não, confessa que não conhece as duas canções novas, presentes na coletânea de singles Once more with feeling: I do e Twenty years. "Não tive dinheiro ainda pra comprar", justifica. Mas isso é amenizado no esquenta realizado na casa de um amigo. Um guri novo na turma leva a coletânea, e os fãs antigos do Placebo colocam as duas últimas faixas do disco no repeat. "Temos que decorar", diz Rafael, o anfitrião.
Antônio Carlos é fã. E como todo fã, preferia não assistir as cinco bandas selecionadas para a seletiva candanga do festival Claro que é rock. A van que levaria o grupo que Antônio Carlos faz parte atrasou, e eles acabaram perdendo a primeira banda. Superquadra tem as mesmas influências que parecem ter todas as bandas de Brasília: a cena de Manchester dos anos 1980, acrescido de The Smiths e The Cure. Nada que seja digno de nota. Presta um pouco de atenção ao rockabilly envolvente dos Sapatos Bicolores. Logo de cara, a banda solta a sua música mais conhecida, A garota cor de fogo. São cinco músicas apenas, mas é o suficiente para mostrar que o grupo liderado pelo gaúcho André Vasquez tem um futuro promissor.
Durante a 10Zer04, um cover mal-feito de Rage Against The Machine, a turma se divide. Mas todos, a partir de um diagnóstico feito pelo novato da turma, acabam se convencendo que essa será a banda vencedora da seletiva. "Nas outras cidades foi assim rapaziada. Só selecionaram as piores", afirmou. Ele aproveitou para tomar umas cervejas e ir até a lojinha do local do show, onde comprou uma camiseta do Placebo por R$ 30. Ignora a participação da Suíte Super Luxo, que é um tanto fria e parece não estar bem localizada ali. Quem fecha a seletiva é a Valentina, banda de Goiás que entrou no lugar de outro grupo goiano, a Violins, desclassificada dias antes do festival. Com um som que consegue a proeza de lembrar Smiths e Cure (eita padrãozinho) sem soar datado, Valentina consegue prender a atenção de muitos na Concha Acústica. Muito pela perfomance afetada do seu vocalista, parecendo uma mistura de Cazuza com Renato Russo.
Terminada a seletiva, Antônio Carlos, que é fã, sabe que não vai agüentar a emoção. Ninguém entrou no palco ainda, mas os primeiros acordes de Taste in men são ouvidos. A platéia vai ao delírio. Antônio Carlos tem seus olhos rasos de lágrimas. Elas já escorrem pelo seu rosto na música seguinte, The bitter end. Ele não liga para a apatia da banda, que parecia mais estar poupando energia para os outros três shows restantes no Brasil. Vibrou quando o vocalista Brian Molko fala pela primeira vez com o público, na introdução de Without you I'm nothing: "Good things come for those who wait". Custou a reconhecer, como muitos entre os cinco mil que estiveram na Concha Acústica a nova versão para 36 degrees. "Só reconheci quando entrou o refrão."
Apesar de ser fã, Antônio Carlos acompanhou quase todo o show de média distância, onde podia pular, chutar o ar e se sentar sem incomodar ninguém. Tentou cantar com toda força dos seus pulmões "It's a maze for rats to try; It's a race, a race for rats", de Slave to the wage, e levantou os braços, como todos fizeram, quando Protège moi foi tocada e gritou como nunca em Pure morning, faixa do seu álbum predileto, Without you I'm nothing.
Só no bis que Antônio Carlos resolveu ir para a frente do palco. E sentiu-se realizado ao ouvir Nancy boy, que fechou o show em Brasília. Achou que tudo passou muito rápido. Nem sentiu que foram quase 90 minutos de performance. Uma performance um tanto fria, sem muita empolgação. Quase burocrática, bem diferente do que havia acontecido nos show de Recife e Salvador. "Agora posso morrer sossegado", exagera, para espanto da sua mulher, grávida de três meses. Ao ver um amigo com outra camiseta do Placebo, também comprada por R$ 30, pede dinheiro a esposa e compra mais uma. E voltou realizado a Palmas.
Escrito por Mário Coelho às 15h08
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