Desabafos regados a Malboro e Coca-Cola


Primas
 
No quarto ao lado do meu, tem duas meninas hospedadas que desconfio serem damas da noite, como canta Wander Wildner. E por uma dessas coisas brasileiras, a tal mania do puxadinho, a janela do meu banheiro dá justamente dentro do quarto delas.  Precavidas - não que eu fosse espionar -, colocaram um lençol na parte delas. Ao entrar no meu quarto ontem, havia uma nova mobília: um pufe. Se eu subisse nele, conseguiria ver tranqüilamente as meninas lá dentro. Como sou um guri de família, não fiz isso. Mas que eu fiquei com vontade de jogar um bilhetinho pro outro lado, ah eu fiquei.


Escrito por Mário Coelho às 16h30
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Culpado
 
Chego na pensão por volta das 21h cansado, com dois sanduíches naturais dentro de uma sacolinha. Toco a campainha pra abrirem a porta (é, a gente não tem chave da entrada) e um rapaz abre a porta. Ele é simpático, prestativo, foi o mesmo que me atendeu no dia que cheguei e que tinha perguntado por que eu tinha passado mal na semana passada. Travamos o seguinte diálogo:
 
- Pô rapaz, você tá sumido! - ele diz - Faz tempo que eu queria falar contigo, bater um papo (eu tô na pensão há dez dias).
- Pois é, é o trabalho né. Saio cedo e chego tarde. (respondo assim porque não lembro o nome dele)
- Tá tudo certo, você tá precisando de alguma coisa?
- Não, tá tudo bem.
 
E aí vem a sugestão:
 
- Olha, se você estiver precisando de alguma coisa, venha falar comigo. Qualquer coisa, roupa de cama, reclamar do barulho.
 
Quando ele disse "reclamar do barulho", fez um sorriso nervoso que na hora se entregou. Uma hóspede sentada na recepção, onde se passava a conversa, olhou pra mim e riu. Agora eu sei quem é um dos personagens da transa barulhenta da madrugada de sexta-feira. Na hora, acho que consegui segurar o riso. E dei uma resposta que mais poderia me incriminar do que não deixar dúvidas:
 
- Valeu, mas tá sossegado. Eu tenho sono pesado.


Escrito por Mário Coelho às 16h25
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Rotina

Os primeiros dias em Brasília foram terríveis. Nada pra fazer, sem saber onde ir, onde comer. Ficava em casa vendo televisão, lendo, ouvindo discman. O melhor momento do dia era quando gastava oito reais numa lan house para usar internet por duas horas. Via os e-mails, o que estava rolando no Orkut e no fotolog. Estava odiando a cidade.

Não que eu a esteja amando agora. Mas a rotina de trabalho tem feito minha cabeça mudar aos poucos. Os três primeiros dias foram fantásticos: tudo estava dando certo. A apuração de matérias ia bem, o chefe passava muita coisa para eu fazer. Mas os últimos dois dias foram terríveis: uma matéria encomendada pelo diretor da sucursal não deu certo, e eu coloquei uma foto errada numa página de roteiro. O erro foi salvo por um editor da matriz em Belo Horizonte.

É bem assim que vive um jornalista: nada dura muito tempo. A profissão te dá altos e baixos muito rapidamente. A questão principal é saber como lidar com esses momentos. A minha sorte até agora é que estou no começo ainda do meu contrato de experiência. Tenho tempo para fazer meu filme por aqui. E que também os colegas são pessoas legais, prontas pra ajudar. Aqui não existe um clima nocivo de competição. Mas o que me alertaram é que a redação está em paz porque uma repórter saiu de férias. Quando ela voltar, dizem, a panela vai esquentar.



Escrito por Mário Coelho às 19h14
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Barulhos

"Moro sozinho num apartamento no sétimo andar de um prédio pulguento  
Ouço vozes à noite que vem da parede é a minha vizinha que acorda com sede  
Vai até a cozinha, abre a geladeira, minha mente se enevoa, me dá uma tremedeira  
Eu quero acabar com esta vidinha, eu quero tocar tua campainha"
Wander Wildner - Minha vizinha

Não era nem quatro horas. Eu dormia tranqüilamente, sonhando com mais um dia bom de trabalho, quando acordo com barulhos feitos pelos vizinhos. Só para situar: estou morando numa pensão aqui em Brasília. É quarto individual, com banheiro, mas mesmo assim você consegue ouvir os outros sem fazer muito esforço. E foi aí que eu ouvi o som de uma respiração ofegante de mulher e o barulho do estrado e da cama gemendo. Algum casal copulava enquanto eu tentava dormir. E isso que é proibido trazer companhia na pensão. Por isso que, no dia seguinte de eu ter passado mal por causa da comida, um dos que cuidam da pensão veio me perguntar o que havia acontecido. Quando saí para o trabalho pela manhã, fiquei com vontade de perguntar quem havia contado dinheiro na frente de pobre.



Escrito por Mário Coelho às 18h58
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O início

Gostei do primeiro dia. Reforçou as minhas impressões iniciais sobre o trabalho. Pessoas legais, ambiente bom e já carregado de pautas pra fazer. Até domingo estava odiando a cidade; quando cheguei em casa ontem, comecei a gostar um pouquinho de Brasília.



Escrito por Mário Coelho às 09h42
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