Me dê um motivo pra não cheirar cola esta noite
A fila de ônibus quase sai da calçada e invade a rua. Na esquina, uma loja que vende cama e colchões já está fechada. Alguns mendigos dormem e outros bebem. Eles ficavam na praça frente à igreja, mas desde que o tempo mudou e começou a chover buscaram abrigo embaixo dos toldos da loja, do lado oposto da rua. Dois garotos conversam, sendo que um deles tem uma sacola na mão direita. Desvio da fila, pulo uma poça d'água e passo por eles. Não consigo identificar a conversa, mas descubro o que existe no saco: cola. Fiquei surpreso; não imaginava que cola ainda fosse usada com tanta droga por aí. Na hora, lembrei da música do Stuart. Aqueles garotos precisam de motivos para não chorarem, de motivos para não cheirarem cola todas as noites. E estão longe de conseguir isso tudo.
Escrito por Al Simmons às 19h34
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Sozinho pelas ruas de São Paulo
Não consigo lembrar se foi após o almoço ou depois do jantar, mas a frase dita por um amigo com arroubos filosóficos ainda está viva na minha cabeça. Isso foi há quase três meses. "São Paulo é uma cidade igual às outras. Tem ruas, carros, pessoas." O pensamento simplista foi alvo de chacotas no momento, e ele ficou sem graça, talvez imaginando a nossa fantasia de que a cidade seria a resposta para todos nossos sonhos.
Ao chegar aqui, andar pelas ruas, sentir o cheiro da poluição e sentir falta da maresia sempre presente da Ilha de Santa Catarina, vi que ele tinha razão. Uma cidade não é mais nada do que um conjunto de ruas, automóveis, construções, pessoas. Em muitos lugares vejo pedaços da cidade onde morei até um mês atrás. Em outros, fico deslumbrado com a grandeza e diversidade que parecem conviver em harmonia.
Nos dias nublados e com chuva, a saudade de casa bate mais forte. Lembro da minha mãe, da minha irmã, dos amigos que deixei lá. Lembro das fotos penduradas no mural do meu quarto, nos discos que deixei para trás. Ah, sempre são eles que a gente quer escutar! Lembro dos bares, da cafeteria que tem o melhor cappuccino (e a que tem o pior também), do antigo local de trabalho, dos antigos colegas.
Olhando da janela do sétimo andar de um prédio na Teodoro Sampaio, bairro Pinheiros, vejo apenas outros prédios. Ouço as sirenes que rompem as ruas saídas do Hospital das Clínicas. Vejo um por-do-sol escondido pela poluição da grande metrópole, da cidade que nunca pára.
Acima do medo, o sentimento que mais aflora é a segurança. Um paradoxo sim, não posso negar. Aqui o futuro quem desenha totalmente sou eu, sem a ajuda de ninguém. Caminho com minhas pernas. Isso é apavorante. Ao mesmo tempo, saber o que quero fazer, onde quero estar, é a melhor coisa do mundo. Acordar feliz, sentir que a vida está mudando, enfrentar o desconhecido de peito aberto. Nada melhor. Nada melhor.
Escrito por Al Simmons às 19h33
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